sábado, 5 de dezembro de 2015

Distopia. - por Thiago Assoni


O céu acima de mim era negro e poucas bolinhas brilhavam lá ao longe, o que imaginei serem estrelas... não eram.
Ao redor, tudo era destruição. Carros por sobre carros, prédios eram apenas esqueletos de algo que um dia fora formoso, alto e imponente. Dava pra ver os móveis lá dentro ainda, ou o que restara deles.
Examinei tudo com calma. Olhei aos lados mais uma vez e só agora notei estar sentado em um tipo de maca metálica, fria, no meio do nada. Aquele teto que via era apenas uma cobertura furada com o que imaginei ser perfurações de algum tipo de arma de fogo. Ou teria sido algum tipo de chuva de meteoritos? Chuva ácida, talvez?
Eu não sabia de mais nada!
No horizonte, fumaça negra subia de algum lugar muito distante. O céu era escuro no centro, mas aos lados havia uma faixa alaranjada, como se fosse final de tarde.
Onde eu estava?
Levantei e percebi que estava descalço. Toquei o chão e senti as pedrinhas pontiagudas machucarem meus pés. Estava ventando frio e o vento vinha de todos os lados. Um som agudo persistia ininterruptamente, enchendo todo o silêncio sepulcral.
Não via nenhum vestígio de vida humana. Insetos, por sua vez, via aos montes. Baratas imensas e cascudas corriam de um lado para o outro, moscas de proporções que nunca imaginei pareciam besouros. Entretanto, não aspirei nenhum odor fétido. Não havia cheiro de morte, apesar do cenário caótico. Também não notava corpos entre os entulhos.
Era apenas um mundo destruído. Como se nunca houvesse vida antes, apenas construções retorcidas e alguns automóveis jogados de um lado para o outro.
Mesmo sentido as pedrinhas cortarem meus pés, caminhei até próximo de um ônibus escolar, daqueles amarelos que só tinha visto em filmes... Temia encontrar, finalmente, corpos mortos e todo meu corpo tremeu com a cena que minha mente criava.
Pé ante pé me aproximei. Silêncio, mas o som agudo que vinha de algum lugar permanecia ali junto ao medo do que poderia encontrar dentro daquele ônibus.
Respirei profundamente e não identifiquei cheiro ruim algum. Dei a volta e encontrei a porta aberta. Estiquei a cabeça para dentro e tudo estava vazio. Os bancos estava limpos, imaculados. Os vidros, ao contrário, enegrecidos com a poeira grossa que descia lentamente dos céus.
Sentei na escadinha de acesso e observei aquela cena: destruição. Uma névoa densa vinha descendo vagarosamente, tomando o quadro à minha frente. A poeira se misturava e o ar estava difícil de respirar. Senti meu peito chiar, pesado com a respiração.
Uma mistura de sentimentos me tomou naquele instante. Não sabia ao certo o que se passava. Sentia falta, mas não lembrava exatamente de quê. Tudo ali parecia outro mundo, como se minha memória buscasse algo de séculos atrás.
O que estava acontecendo?

***

Tempos caminhando, meus pés já não suportavam mais. Avistei o que havia sido um playground e fui até ele. O gira-gira continuava girando com crianças fantasmas, pois não havia ninguém sentado ali para que continuasse fazendo-o girar. Os balanços iam e vinham sozinhos, no ritmo cadenciado do vento que soprava de todos os cantos. Sentei em um dos balanços e deixei-me ir e vir vagarosamente. Fechei os olhos e deslumbrei o que poderia ter sido aquele lugar tempos antes.
Risadas infantis se fizeram ouvir e abri os olhos. Parei o balanço com os pés machucados e deixei-me observar novamente aquele parquinho. Vi o carrinho de pipocas com o vidro quebrado e a pintura gasta; vi uma toalha xadrez que pendia de um galho seco da árvore morta; a quadra esportiva sem trave, ou rede, ou nada que lembrasse uma quadra esportiva, não fosse a estrutura básica de arquibancadas e o retângulo de concreto...
Eu sentia um resquício de vida por ali, naquelas formas suaves e com alguma cor que restara. Os brinquedos de ferro retorcidos ainda deixavam um colorido sujo, enferrujado. O fim não parecia ser o final.
Cansado, suspirei e apoiei a cabeça na corrente do balanço. De soslaio, notei algo no chão ao lado. Surpreso, precisei despertar para acreditar.
Ali, no meio de toda aquela destruição, uma flor amarela subia sozinha da terra. Não havia nenhuma outra, apenas ela. Ajoelhei-me e aproximei meus olhos para vê-la. Não era artificial! Toquei-a levemente para sentir a delicadeza da pétala. Era pequena, tão frágil... Mas tão resistente! A única vida naquele lugar...
Ouvi risadas infantis novamente e olhei para trás. Uma sombra se passou, sumindo por detrás de um amontoado de terra e entulho onde antes havia um escorregador de concreto, daqueles grande onde tinha um túnel por debaixo.
- Hey! – gritei meio rouco, e só então notei que ainda tinha voz.
Minha voz soou como um eco que nunca mais terminava, misturando-se com o som agudo que estava sempre presente.
Levantei e deixei para trás a flor amarela. Se é que tinha mais alguém ali, precisava ver quem poderia ser.
Sentia dores nos pés, mas isso não impediu que eu fosse atrás do que queria descobrir. O escorregador de concreto estava rodeado de entulho, mas notei a entrada do túnel livre bem ali ao lado.
Com o resto de força que ainda tinha, corri para a meia lua que o túnel formava. Olhei ali dentro e paralisei. Aqueles olhos amendoados brilhavam com um sorriso imenso, esperançoso, inocente.
Meu peito encheu-se de dor e angustia, mas aquela crianças me presenteava com aquele sorriso generoso e iluminado. Eu tremia, ela sangrava. Não, ela chorava! Chorava sangue, mas ainda sorria.
A criança me estendeu as mãos pequenas, machucadas. Um coração pulsava entre os dedos miúdos. Assustado, olhei o pulsar e voltei os olhos do pequeno. O menino ainda sorria com seus olhos sujos de sangue. Vagarosamente, ele segurou o coração com apenas uma das mãos e, com a outra, apontou para mim.
Segui o dedo esqueleto do menino que apontava para mim e olhei para me ver. Minha camisa encardida estava suja de sangue também, um círculo na altura do peito onde deveria bater meu coração. Como num reflexo, levei a mão ao peito e só então percebi que havia um vácuo ali.
Voltei os olhos para o pequeno e ele sorriu, como se confirmando aquilo o que eu imaginava. Aquilo em suas mãos era o meu coração! Meu coração em frangalhos que eu havia abandonado, deixado ferir. Meu coração que sangrava por sentimentos fúteis, e estava destruído por mim mesmo.
Quando toquei a mão do menino e senti meu coração pulsar, vi que, na verdade, a criança era eu! Vi que aquele mundo caótico e destruído, abandonado... Tudo era eu!
Loucamente chorei e me deixei cair. Fechei os olhos e o vento aumentou, forte, frio, barulhento. Tudo o que já estava destruído parecia ruir, como se um imenso buraco estivesse se abrindo e engolindo tudo. Em seguida, a sensação de queda livre. Caindo no vazio de outro espaço, flutuando no Universo negro e brilhante. Milhões de planetas, uma explosão no infinito e tudo se iluminou.


Invadido por aquela luminescência, eu acordei. E mais um dia estava começando para ser vivido. 

6 comentários:

  1. caramba, gostei muito thiago!!! poste mais desses por favor, sempre que a inspiração lhe permitir!

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    1. Muito obrigado pelo coments. Realmente estou entregue à inspiração, pois até a última linha não sabia o que aconteceria com este conto.

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  2. Que maravilha é essa Thiago Assoni? Nossa, viajei no enredo me passou um desespero, uma agonia sem igual, eu simplesmente adorei! Parabéns! 😘

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    1. Maravilha mesmo é receber a visita de vcs aqui!
      Preciso voltar a praticar mais meus contos...

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  3. CA-RA-LHO! Deu até palpitação aqui. Dá um cenário incrível pra um enredo maior ainda. Imaginei o carinha acordando e, ao sair da casa dele, se depara com o cenário que ele sonhou. WOOOOOOW!
    Parabéns, Thi. Tu escreve muito bem! <3

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