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terça-feira, 12 de abril de 2016

Cellophane - Conto - por: Thiago Assoni


O mundo girou num instante, os pés voavam soltos sem sentir mais o chão abaixo deles. Explosões coloridas encheram seu globo ocular, criando ondas infinitas e todo um universo diante de si. Não tinha mais domínio próprio, a música domava cada um de seus movimentos ensandecidos e alucinados.
Um mundo interior se descortinou em meio a sua dança frenética, mas não compreendia o que se passava. Um turbilhão de sentimentos, emoções e sensações... Não eram as drogas ou bebidas, era algo incrivelmente superior a tudo o que já conhecera antes. Nada seria capaz de descrever aquele instante.
Viu-se num emaranhado de pequenos pontos luminosos, estrelas que pendiam em um véu negro do céu da noite. Tentava parar o corpo, mas já não era mais obedecido. Perdido na mágica da alucinação temporária.
Luzes lilases enchiam seu campo de visão, fazendo tudo sumir por alguns instantes. Um funil imenso em preto e branco foi levando seu corpo para outra estação, um novo mundo para ser desvendado.
A vibração das notas musicais gritavam em sua pele arrepiada. O impacto do som contra cada parte de si só elevava seu interior rumo ao portal transcendental que flutuava não muito distante.
Nuvens fofas de algodão amparavam seu peso zero, olhos piscaram por todos os lados – apenas olhos soltos e sem rosto que pendiam no vazio do lugar de azul anil brilhante.
Uma luz amarelada que se assemelha à luz do sol se fez ver, mas não era possível notar de onde vinha, qual era sua origem. Havia apenas o existir, não mais o querer. As vontades estavam distantes, o poder não era possível.
Passou pelo portal iluminado e o infinito girou dentro de si sem parar. Seres que voavam por todos os cantos, não havia céu nem terra, somente todo o espaço sideral em descompasso.
Aos poucos, notou que despencava. O frio na barriga, a falta de ar, a pressão craniana, ataque cardíaco... Seus olhos se remexeram, tirando o foco da visão e, enfim, sentiu o chão frio nas costas, o rosto úmido e as mãos formigando. A audição falhou, a música emudeceu.
O mundo parou de girar. Abriu os olhos e encarou a lâmpada fluorescente que pendia no teto tosco e cheio de infiltrações, blocos de isopor soltos na base de ferro cinza. Pendeu a cabeça para o lado e só então percebeu estar num quarto de hospital. Soro, batimentos cardíacos, maca, lençóis brancos...
Um sorriso débil lhe enfeitou o rosto. Sua cabeça ainda girava no infinito de outrora, mas sabia que o corpo já não mais pertencia àquele lugar além-mundo. Estava de volta à horda de zumbis alienados e perdidos. Estava de volta ao que chamam de mundo real. 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Conto - A mulher que me roubava o marido - por Thiago Assoni

 


Meu nome é Tereza, tenho 42 anos. Sou Funcionária Pública há vinte anos e casada há vinte e cinco. Tenho dois filhos que me enchem de orgulho por já terem metas para o futuro e por estudarem para alcançá-las. Nunca impusemos nossos desejos fracassados sobre eles, o que acho válido. Tiveram (e ainda têm) a liberdade de ser quem querem ser, não o que nunca conseguimos.
  Celso, meu marido, é advogado e trabalha numa grande construtora brasileira aqui em São Paulo. Empresa de nome conhecido, grande e importante! E Celso é um homem de caráter e de honra, nunca cedeu às corrupções que seu trabalho envolve. Já vimos muitos que caíram, envolvidos em escândalos que até foram televisionados... Mas meu marido sempre esteve entre os melhores! Seu nome nunca surgiu em listas de investigados ou envolvimentos de qualquer desses escândalos...
  Mas eu sempre desconfiei de que havia algo errado. Há muito tempo vinha notando seus sumiços repentinos, as reuniões fora de hora, viagens que não estavam previstas em nossa agenda.
  Algumas (muitas) vezes, quando marcávamos jantares em nossa casa, acabava ficando sozinha com nossos amigos convidados. Eles, claro, nunca comentavam nada sobre isso, mas eu sempre notei nos olhos de cada um deles: alguns sentiam pena, outros pareciam tirar sarro daquela detestável situação...
  E eu chorei! Muitas e muitas noites, sozinha na cama de casal vazia, eu chorei. De tristeza, de raiva! Raiva do meu marido por aquela traição, mas, principalmente, raiva de mim mesma por ser tão medíocre e covarde.
  Eu sentia dor! Durante todo tempo aquilo me doía. Imaginar que Celso estava se relacionando com alguma outra mulher, certamente uma mocinha bem mais jovem do que eu, estava me matando!
  E como eu sabia que era outra mulher? Bom, eu fiz algumas rasas investigações. Celso nunca foi muito bom em esconder coisas, pelo menos era o que eu pensava. Encontrei as faturas do cartão de crédito dele e ali estava descrita sua falta de cuidado em detalhes: nome das lojas, dia, horário e qual o produto comprado.
  Vestidos caros, roupas íntimas, objetos de sex shop... Deus! Aqueles perfumes caros e adocicados que nunca gostei, tratamentos em clínicas de beleza das quais nunca estive... Nada daquilo foi gasto comigo! Era presente para alguém, para a amante dele!
  Mas isso não ficaria assim, eu não ia deixar por menos.

***

  Certo final de semana eu acordei cedo, sozinha na minha cama, mais uma vez. Quase não consegui dormir imaginando aonde deveria estar meu marido. Fiquei virando na cama, perturbada com cenas que invadiam minha mente.
  Eu queria gritar, esmurrar as paredes, quebrar todas as coisas que visse pela frente, queimar as roupas e todas os pertences dele! Mas mantive a calma, como sempre fiz.
  Pela manhã levantei e segui meu ritual matinal normal. Arrumei nosso quarto de mentiras, preparei o café da manhã. Nossos filhos não estavam em casa, o que era bem melhor: não ia precisar sorrir enquanto meu coração estava aos pedaços!
  Sentei-me à mesa e, olhos vagos, tomei meu suco calmamente enquanto minha mente ia longe e meus dentes mastigavam a torrada integral. Aquelas imagens criadas pela minha mente entristecida teimavam em reaparecer e eu me esforçava para ignorá-las.
  Celso chegou, vindo da rua. Me sorriu com aquele sorriso amarelo, pois ele não esperava que eu já estivesse acordada e à mesa com tudo pronto ali tão cedo. Tinha o paletó jogado no braço, a camisa com botões abertos até metade do peito e, mesmo de longe, notei o batom meio borrado na boca.
  Fingindo precisar do banheiro, ele correu pelo corredor. De fato ele entrou no banheiro mesmo e bateu a porta em seguida. Ouvi água na pia. Ele queria tentar esconder as evidências, é claro.
  Quando voltou para a cozinha onde eu estava, Celso beijou meus cabelos e disse estar cansado, que tentou me ligar na noite anterior tão logo a reunião acabara, mas que não tinha conseguido. Eu sabia que era mentira, é óbvio, mas menti também: disse que tinha ido dormi cedo e talvez não escutara mesmo o telefone tocar quando, na verdade, eu quase nem conseguira dormir.
  Ele disse que ia tomar um banho, pois tinha dormido em um hotel lá pelo centro mesmo por achar perigoso voltar já tão tarde da noite. Disse ainda que alguns dos acionistas convidaram-no para um drink em um bar lá e, enquanto falava comigo, ia caminhando para o quarto.
  Ah, aquele cheiro doce ainda estava nele. Filho de uma grande puta, que me desculpe a mãe dele. Mentia com a maior cara lavada do universo! Passou a noite comendo a amante e vem tentar me convencer de que estava com acionistas em um bar falando sobre como o dólar oscilava e como estava difícil a situação econômica do País na no momento atual... Sei.
  Eu estava louca, em nervos! Ergui-me e fui até o quarto. Celso não estava mais lá, já estava no banho, mas havia deixado a maleta e as roupas sobre a cama. Outra grande falha de um mentiroso que não sabe sustentar suas mentiras.
  O cheiro quase sumia, mas o perfume ainda estava no paletó. Apertei o tecido com força, controlando-me para não entrar naquele banheiro e matá-lo com minhas próprias mãos!
  Foi quando senti algo no bolso e logo procurei para saber do que se tratava. Puxei um pequeno cartão de acesso do que parecia ser algum tipo de boate. Era como um cartão qualquer para destravar catracas de edifícios feito o que ele trabalha, mas havia outro nome ali. Antonieta. Então era essa minha rival? Antonieta?
  Anotei o nome da casa de shows libertinos e fui para o computador em busca de informações. Boate Luz Neon, avenida São João, centro de São Paulo. Só abria nas sextas, sábados e domingos. Ótimo! Eu ia atrás dele na próxima sexta-feira...

***

  Não falei nada pra ninguém naquela noite de sexta-feira, apenas disse aos meus filhos que ia sair sem hora certa pra voltar. Liguei para o Celso e disse que sairia com umas amigas do tempo de escola e, como nota mental, pensei: aquelas que sempre marcavam festas e eu nunca ia pra não deixar faltar a presença de esposa dentro de casa, a mãe exemplar e muito menos deixar faltar a janta e tudo arrumado para você!
  Sem fazer perguntas, ele disse que tudo bem e que talvez precisasse ficar até mais tarde no escritório, pois um caso muito importante e rentoso estava prestes a ser concluído. Disse até que, talvez, nem voltasse para casa e ficasse lá pelo centro mesmo.
  Mas é claro que ficaria... Eu sei que ficaria, pois iria encontrar a tal Antonieta na Boate Luz Neon, não é mesmo? Canalha! Que ódio que eu sentia. Precisei parar o carro diversas vezes durante o caminho, pois de tão nervosa, eu tremia incontrolavelmente.
  Milhares de coisas se passavam na minha mente desvairada enquanto dirigia. Qual seria minha reação ao encontrá-lo com a vagabunda da amante dele? E qual seria a reação dele ao me ver chegando e pegando-o com outra? Será que a amante sabia que ele era casado?

***

  A Boate Luz Neon fazia jus ao nome, pois toda sua faixada era de neon e o nome piscava de vez em vez. Era um prédio antigo, dois andares, com sacadas de portas fechadas lá em cima.
  Estacionei do outro lado da rua e, com cuidado, atravessei. Respirei fundo e me aproximei da entrada. Dois rapazes muito altos me olharam com seus rostos sérios e carrancudos, deram espaço e entrei.
  Uma moça sorridente me recebeu no que parecia ser uma recepção e perguntou se eu tinha o nome na lista ou se iria comprar a entrada. Notei um olhar meio interrogativo, como quem diz: "o que a senhora faz aqui?", mas paguei a entrada e a mocinha estendeu a cortina de veludo atrás dela.
  Adentrei o salão...
  O chão era revestido por um carpete vermelho já bem gasto, as paredes de madeira lustradas não brilhavam devido à iluminação fraca e proposital do ambiente, o que ocultava os clientes. Havia muitas mesas arredondadas e quase todas ocupadas.
  Logo quando entrei vi, ao lado, um bar bem decorado com quadros antigos e uma vitrola de onde saía um tango eletrônico que escapa por uma extensão de caixas de som espalhadas pela Boate. Lá nos fundos, identifiquei um palco com cortinas ainda fechadas.
  Discreta e calmamente, sentei em uma cadeira de uma das (poucas) mesas vazias. Tentei olhar aos lados e encontrar meu marido, mas não seria tão fácil enxergar. Não podia dar bandeira, precisava me manter calma e observar com cautela para encontrar o Celso.
  O garçom chegou e ficou surpreso ao me ver. Novamente aquele olhar curioso e notei um sorriso diferente no rosto dele. Pedi conhaque, dose dupla. Após anotar meu pedido, ele me olhou daquele jeito estranho mais uma vez e saiu.
  Odiei estar ali, queria ir embora logo e quase levantei para sair. Mas algo dentro de mim gritava para que eu ficasse, quase como uma ordem. Eu precisava acabar com aquela angústia, precisava desmascarar meu marido e ver quem era a tal de Antonieta. Não ia continuar sendo enganada! Ele não poderia continuar com aquela vadia, não ia ficar me traindo com uma vagabunda de boate!
  Mais uma vez olhei aos lados e tentei encontrar o Celso. Será que ele chegaria um pouco mais tarde ou já teria ido embora com a pilantra da prostituta dele?
  O garçom trouxe meu conhaque e deixou o copo sobre a mesa. Quase não notei, mas tão logo o vi, peguei o copo e bebi rápido demais. Não sou acostumada a beber e senti minha garganta arder. Quase posso jurar que já me sentia embriagada, mas claro que não podia ser.
  Três conhaques e mais um set-list de electro-tango depois, eu estava quase desistindo de me encontrar com o Celso ali na Boate Luz Neon. Estava cansada, triste, arrasada... Quando levantei, precisei sentar de novo. O mundo girou e senti minhas pernas não responderem meus comandos. Apoiei a cabeça nos braços deitados sobre a mesa e respirei fundo.
  De repente a música parou e ouvi um rapaz ao microfone. Levantei lentamente a cabeça para observar o que estava acontecendo. As luzes do palco se acenderam rápido demais, ofuscando minha visão e demorou até notar que um espetáculo estava começando.
  - Com vocês: Antonieta!
  Ah, então chegou a bendita - ou maldita - hora de conhecer a minha rival. Aquele filho de uma grande puta deveria estar no camarim até agora e, talvez, estivesse assistindo tudo ali de trás do palco. Olhei ao lados para ver se ele, por um acaso, não estava em algum lugar por ali no bar agora que já tinha desejado "boa sorte" para sua amante.
  No palco, a música começou. Como não poderia deixar de ser: um electrotango. As luzes piscaram e a figura de vestido vermelho e bem decotado surgiu sozinha. Sempre imaginei que dançar tango deveria ser em par, mas, pelo visto, esta Antonieta sabia mesmo ser bem peculiar.
  Durante toda a introdução da música, ela ficou de costas. Deu passos sensuais até o centro do palco e virou-se. Notei seu rosto, a maquiagem bonita. Um ser andrógino e só então notei que não havia uma vasta cabeleira negra como era costume das dançarinas de tango. As curvas bem torneadas do corpo bem feito também não eram tão delicadas, mas ela era linda! Tão graciosa, tão lindamente performática...
  Dançou, enfim, ainda sozinha, com passos graciosos. A leveza impar, movimentos soltos, olhar marcante. A flor estava na boca, como deveria estar no companheiro invisível; um colar de pérolas enrolava-se no pulso escondido por luva preta, a perna grossa em meias pretas rendadas...
  Antonieta era mesmo alguém que chamava atenção, que arrancava suspiros, fazia brilhar os olhos! Era formosa, era graciosa, delicada, linda...
  E isso me deixou perturbada! Eu estava olhando, mas não acreditava. Então era isso, por essa razão aquelas reuniões fora de hora existiam. Ele realmente estava me traindo com ela, com a Antonieta! As faturas que descreviam as compras estavam corretas e jogavam-me na cara algo que nunca quis notar...
  Céus! Não poderia eu ser tão cega, poderia? Como deixei passar algo assim? Ele estava me traindo, ele tinha outra... Mas como crer no que meus olhos me mostravam? Lá estava ela, lá estava minha rival.
  A mulher que me roubava o marido era Antonieta...
  E Antonieta era meu marido!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Conto - * O Vampiro Da Guarda * - por: Thiago Assoni


  Do alto daquele prédio eu assistia o movimento viciado da cidade de São Paulo. Os postes que iluminavam as calçadas em pequenos intervalos, as pessoas que nunca paravam, os faróis dos carros que também iluminavam e refletiam no asfalto molhado... A São Paulo como todos conhecem.
  Ao meu lado, Yansumi observava tudo em silêncio. A jovem Oriental, que mais parecia uma personagem retirada de um desses Mangás, era iniciante, estava há pouco vivendo sua Morte na Penumbra. Ali, comigo, ela estava apenas para observar...
  O que já era de costume, deixe-me perder no vai e vem da Metrópole. Em meio a tanto movimento, percebi o momento em que uma moça apressou o passo. Ela abraçava sua bolsa e caminhava assustada.
  Ignorei-a e voltei minhas atenções para a noite. Porém, por mais que eu não quisesse me atentar àquela jovem que parecia amedontrada, já me era tarde. Sua voz falava dentro de minha cabeça, eu podia ouvir seus pensamentos...
  -“Deus... Me ajude!”.
  Assim sendo, procurei com os olhos a tal moça. Yansumi percebeu e olhou também. Vimos a tal andando rápido e olhando constantemente para trás. Ela fugia de alguém... Procurei com os olhos quem poderia ser e logo encontrei: Dois rapazes a seguiam...
  Ela estava com medo, e deveria estar mesmo! O que se passava na mente deles era realmente medonho! Roubar, estuprar, matar... Talvez não nessa ordem...
  Saltei para o prédio vizinho e me coloquei de maneira com a qual eu pudesse ver a rua além da esquina que ela virou. Por ordem minha, Yansumi continuou onde estava.
  A moça tentava escapar, mas o rapaz que vestia uma blusa azul correu até ela. Assustada, ela jogou a bolsa e correu também, mas ele foi mais rápido e a levou para um beco entre os prédios...
  O outro rapaz, que vestia uma jaqueta preta, parou em frente ao beco e eu vi o exato momento em que a lâmina brilho ao encontrara Luz do poste... Uma faca, talvez...
  A moça teve a boca tampada pela mão do rapaz de Azul. O da jaqueta foi indo em direção aos dois dentro do beco... E eu ali em cima, assistindo toda a cena...
  - Por favor... - a moça tentava falar. - Me deixem em paz!
  Ela falava baixo, mas eu ouvia tudo! E eu ouvia também Yansumi, que estava desesperada com tudo aquilo. Olhei para a Oriental e a tranqüilizei com um gesto de mão... Eu pedia para ela esperar...
  - Vamos deixar, querida... - o que a segurava riu.
  - Com certeza vocês vão deixá-la mesmo!
  Os três procuravam pela voz que parecia ter surgido do nada.O da jaqueta, que tinha a lâmina em mãos, parecia o mais nervoso. Eles ouviam a voz mas não sabiam de onde vinha...
  - Larguem-na e saiam daqui!
  O de Azul, que estava com a moça, usou-a como escudo e riu nervoso...
  - Aparece aê, oh Batiminho...
  Não sei como foi receber o golpe, mas vi a tal lâmina voar longe e o corpo do que estava com a jaqueta caiu morto no chão, com o pescoço quebrado.
  Meu sorriso com certeza foi assustador. Meus caninos eram anormais e meus olhos brilhavam escarlate, o vermelho tradicional...
  - O que é isso?
  O de Azul estava realmente muito assustado.
  - Você ainda pode viver!
  Eu sentia o cheiro dele... MEDO!
  - Bonita a lente, BAT-DRAG... - ele tentava manter o ar superior, mas já não estava mais com o controle da situação. - O que mais tem aí? Um batom biônico?
  - Sinto muito por você...
  Com certeza ele nem reparou o momento em que meu punho o acertou. Finalmente a moça se viu livre dele e correu para um outro canto.
  O rapaz estava atordoado, mas ainda assim sacou a arma e apontou para mim...
  - Fim de linha, gata negra... Vai morrer!
  E ele atirou! Meu corpo tombou e caiu, o que fez ele sorrir. Ele riu alto e eu pude ouvir o choro da moça, que correu dali. Ainda rindo, o rapaz foi até onde eu estava e se abaixou perto de mim, dando-me vários tapas no rosto...
  - Imbecil! - ele ria...Desesperado. - Morreu!
  Mas algo de errado aconteceu... Para ele!
  Minha mão segurou o pescoço dele e eu vi em seus olhos que o ar começou a lhe faltar...
  - Realmente, meu caro... - eu levantei e o levantei junto, tirando-lhe os pés do chão. - Morri mesmo... Há alguns anos!
  Com a outra mão, quebrei-lhe o pescoço e joguei seu corpo morto ao chão. Yansumi chegou ao meu lado nesse momento...
  - Seja rápida! Faça o que tem pra fazer e volte logo para casa...
  Deixei a Oriental ali e fui encontrar a tal moça...

* * * *


  As mãos trêmulas tentavam encontrar a chave certa para abrir a porta do apartamento. Tamanho era seu nervosismo que as chaves caíram da sua mão... Mas antes que o molho de chaves chegasse ao chão, eu o peguei...
  - É essa aqui! - eu entreguei a chave exata para ela.
  Ainda assustada, a moça iria gritar e correr, mas eu a segurei junto de mim e calei sua boca com minha mão...
  - Calminha aí, mocinha... - eu disse, sério. - Eles não vão mais voltar... Nunca mais!
  Senti que ela relaxou o corpo. Ainda estava nervosa, mas eu sabia... Ela não correria e nem gritaria mais... Assim sendo, eu a soltei.
  - O que você fez com eles?
  Olhei bem para os olhos dela... Eram lindos olhos, aqueles. Não era preciso ela saber a verdade.
  - Não se preocupe... Vai ficar tudo bem agora!
  - E você? - ela perguntou, bem mais calma agora. - Quem é?
  - Sou Tales!
  Eu fiz mesura e ela sorriu.
  - Meu Anjo da Guarda!
  - Não exatamente...
  Eu retribuí o sorriso. Ela virou-se para colocar a chave na fechadura da porta e, quando virou de volta, eu não estava mais ali.


* * * *


  Cheguei em meu apartamento e encontrei Yansumi mais corada, mesmo ela sempre tendo sido pálida. Ela não me perguntou nada, apenas chorava. Mas, naquele momento, eu pouco me importava com Yansumi, pra ser bem sincero, até comigo mesmmo. 
  O belo rosto daquela moça não me saía da mente. E, por mais que eu quisesse me lembrar, percebi que em momento algum eu soube o nome dela.
  Mal sabia ela que tipo de Anjo era eu. Na verdade, nunca um Anjo da Guarda.
  Eu era Tales!
  O Vampiro da Guarda...

Continua...



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Conto - Understanding - Thiago Assoni


O silêncio, pesar e sofrimento eram quebrados pelo som dos sinos da Igreja que soavam para findar o velório que lá se passava.
Havia mesmo muita gente, os bancos estavam todos ocupados, a tristeza se fazia presente com pesar nas vestes em luto daquela gente.
Lá fora, o céu, também vestido em luto, parecia chorar o fechamento do caixão. Em latim, o padre abençoava mais uma alma a qual findara com sua própria vida carnal.

- In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti...
- Amém. - respondeu a turba em uníssono.

Entrou cabisbaixa naquela Igreja uma moça alva de olhos claros e marcados à lápis preto que escorria à face pálida. Os cabelos negros misturavam-se às roupas de seu pesado luto. Atravessou os umbrais imensos sussurrando algumas palavras de significado íntimo.
Vagarosamente, ela andava até o altar. Olhava triste para aquelas pessoas. Seus parentes, amigos e outros que eram apenas alguns conhecidos. Alguns rostos brilhavam flashs de lembranças remotas.

Um verão com o então namorado numa praia há alguns anos, muitos daqueles presentes na Igreja eram ainda adolescentes. Corriam à beira do mar, chutavam a água para que molhassem uns aos outros. Naquela mesma noite, um Lual com os amigos, violão e fogueira. O carro do namorado um pouco mais distante, no alto de uma baixa colina. Sua primeira noite de amor em um carro...

Mantinha-se o silêncio pesado nos ocupantes da Igreja. Apenas a voz rouca do Padre que lia algumas palavras que não prendiam as atenções do que ali estavam.
A moça lhou para o altar e viu ali seu noivo e ele estava triste agora. Foi naquele mesmo altar que há alguns anos se casaram, trocando as juras de amor e promessas de união até que a morte os separassem...

-“Prometo ama-lo e respeita-lo todos os dias de minha vida... Até que a morte nos separe...”.
-“Prometo ama-lo e respeita-lo todos os dias de minha vida... Até que a morte nos separe...”.

Ela se aproximou dele, olhou-o triste. Ele chorava tanto. Sua tristeza era grande e a atormentava demais. Sentia seu peito doer com a dor dele e aumentava cada vez mais. Cada lágrima que escorria a face dura daquele rapaz, doía profundamente dentro dela.

"Please, don’t be afrain... When the darkness fades away..."

Nada que ela dissesse naquele momento iria conforta-lo. Sua tristeza era demasiadamente dolorosa, uma lacuna que se abria e se aprofundava tanto nele quanto nela. A tristeza era gritante, mesmo naquele silêncio.

- Você nunca estará sozinha, meu amor... Nunca...

Era o momento do caixão ser levado para o carro funerário e lá estava seu marido a frente do caixão. Mesmo sabendo que deveria, ela não se juntou àquela turba de zumbis e ficou sentada entre os degraus da escadaria à porta da Igreja, assistindo àquela triste cena.
Observa seu marido de longe, tão triste, tão choroso. Nunca o vira tão frágil.

Quando, enfim, o caixão foi posto no carro funerário e as portas traseiras foram fechadas, todos partiram todos para o cemitério em seus carros particulares. Ainda sentada à porta da igreja, Emilly viu os carros, um a um, sumirem lá depois das esquinas...

Os passos pareciam arrastados no caminho até a sepultura. Pedrinhas minúsculas em toda extensão do chão desigual e esburacado. O grupo de pessoas seguia o caixão em duro e absoluto silêncio, salvo exceção dos choros que seguiam baixinhos, inclusive o daqueles duas pequenas crianças que choravam sentidas pela morte de quem ali ia sendo levado...

Emilly, a moça que antes jazia entre os degraus polidos à porta da Igreja, sofria muito com tudo aquilo. Doía tanto vê-los daquele jeito. Eram crianças, não deveriam sofrer tanto assim...

Manteve-se afastada o tempo todo. Viu o momento em que pararam para uma ultima oração enquanto o céu escurecia mais e mais, as núvens grossas e negras surgiam para deixar o dia virar noite. Conforme via aquele momento, os pensamentos de Emilly rodavam em mente como se num filme fora de controle, ordem e velocidade. Oras lembrava de sua infância, oras de dias atrás. Em alguns momentos via tudo corrido, em outros em câmera lenta...

O nascimento de seu primeiro filho...Um menino lindo...
Relembrou o nascimento da menina, dois anos depois...

As criancinhas que choravam no velório... Eram eles, eram seus filhos! Olhou aos lados e encontrou também seus pais que choravam muito.
Então ela tentou falar com alguém, se aproximar... Mas ninguém lhe dava atenção e isso a deixava atordoada! O que estava acontecendo, por qual razão aquela dor no peito ainda doía tanto e cada vez mais?

"Hold and speak to me... Of love without a sound..."

A dor no peito doía insistentemente e o choro de todos acentuava aquele sentimento pesado que a prendia na terra, fixando os pés como se andando sobre areia movediça.
Dada a hora do sepulcro, sua visão escureceu...

Ouvi o som da chuva tilintar no vidro, o carro parou.
Era noite. Escutava, ao longe, uma discussão...
Os passos duros no chão molhado, ouviu os gritos
Ela puxava seu marido das mãos de dois grandalhões e um deles correu com algumas coisas na mão. O outro em seguida e parou num beco escuro. Também tinha algo em mão e ergueu o braço na direção dos que sofreram o assalto.

"Tell me you will live through this... And I will die for you..."
BAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAM ! ! !

O disparo ecoou em sua mente e sentiu o baque no peito seguido do líquido rubo em suas vestes empapadas.
Olhou para o local que doía tanto o tempo inteiro e lá estava o sangue que corria livre, fazendo-a sentir desfalecer novamente.
As pernas bambearam e a visão se fez turva. Lembrava de ter caído nos braços forte do marido que gritava seu nome initerruptamente e pedia por ajuda.
O vermelho e azulk do giroflex que cortava as ruas da cidade, a chegada ao Hospital, a equipe de médicos que corria ao lado dela na maca que seguia para a Emergência...

- Um...Dois...Três...Afasta!
E o choque fazia seu corpo saltar da maca, um apito agudo vinha breve...
- Vamos, mais uma vez...
E o choque percorreu seu corpo mais uma vez.
- Inútil...- disse o doutor, triste, jogando a máscara cirúrgica no chão.- Perdemos a paciente...

A chuva ainda banhava toda a cidade, lavando a sujeira das ruas e levando a tristeza para longe do jazigo onde Emilly estava agora. Todos já haviam indo embora, as flores jaziam sobre o mámore cinza.

Um túnel abriu-se a sua frente e ela compreendeu que precisava partir. Mas não queria ir, a dor era ainda muito real e não conseguia acreditar que era verdade.
Olhous para suas mão e sua roupa. Ela sangrava. Tremia.
O silêncio, pesar e sofrimento eram quebrados pelo som da chuva que insistia cair por sobre a necrópole, agora, deserta de seres vivos.

Olhou mais uma vez para aquele jazigo de mámore onde estava sentada, o vestido abrindo-se sobre o tampão recém-vedado. As letras douradas denunciavam aquilo o que não queria acreditar:

“Aqui jaz Emilly Rose”.

Ao som da Música: Understanding
Artista: Evanescence